A arte perdida de fazer discípulos   

Todo princípio tem maior ou menor obscuridade com relação a sua aparência, mais nenhum momento na história foi tão obscuro como o início do cristianismo. Quem a não ser o próprio Jesus poderia vislumbrar as proporções gigantescas que seu exemplo de vida, sua mensagem, sua morte e ressurreição tomariam após sua ascensão? Quem poderia supor que aqueles humildes seguidores dariam continuidade a sua missão, negando-se a si mesmos, ao ponto de seguir seu Mestre até o vale de sombras e mortes?

Provavelmente ninguém! Mas o bondoso Jesus sabia que aqueles simples homens após a sua partida, estariam prontos para usar suas habilidades com competência, colocando em pratica tudo o que tinham visto e ouvido durante o pequeno período de três anos em que andaram com Ele.

Jesus Cristo esperava que seus amigos, seus escolhidos entendessem que quando Ele volta-se para junto de seu Pai, após concluir sua grande missão, não deveriam desanimar. Na verdade o anseio do amável coração de Jesus era que eles compreendessem que deveriam ser grandes protagonistas no mundo, deixar a marca permanente de seu Mestre na história, assumir o seu lugar e continuar com coragem a obra que Ele iniciará, em seu Nome, e com sua ajuda.

Jesus compreendia que eles enfrentariam grandes perseguições quando Ele volta-se ao lar celeste, por isso lhes fez uma promessa: […] Ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder […] (Lc. 24.49b). Os discípulos obedeceram à ordem de Jesus e permaneceram unidos em oração no cenáculo até que no dia da festa de pentecostes, Jesus cumpriu sua promessa enviando do céu línguas de fogo sobre cada um, de sorte que todos foram cheios do poder de Deus e começaram a falar em novas línguas.

Desta forma nasceu a igreja, com a subida de Jesus aos céus e a descida do Espírito Santo a terra. Caracterizada pela íntima comunhão dos discípulos com Cristo e uns com os outros a igreja floresceu. Os discípulos iam por todos os lugares pregando o evangelho de Jesus, espalhando seus ensinamentos, fazendo em seu nome muitos milagres e cumprindo assim sua ordem descrita em Mateus 28.19,20: Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.

A grande comissão de Jesus aos seus discípulos é profunda e abrangente, pois Ele não nos manda somente “ir” e ganhar almas para o seu reino, sua ordem vai mais além, “ir e ensinar”; portanto é fundamental acompanhar o processo de desenvolvimento e amadurecimento espiritual dos novos membros do reino de Deus, até que possam prosseguir firmes na jornada cristã. Sobre este assunto escreveu o pastor José Antônio de Bem (1999): É quase um crime esforçar-se para ganhar um pecador para Jesus e depois abandoná-lo às aves de rapina, aos espinhos do caminho, sem a devida assistência.

Jesus sempre foi rodeado por uma grande multidão, as pessoas vinham de muitos lugares para vê-lo, alguns por pura curiosidade, outros para serem curados, mais muitos vinham para ouvi-lo, pois tinham grande amor e devoção.

O Mestre mesmo amando a todos de igual forma, não dedicou seu tempo e suas energias integrais a multidão. Ele escolheu alguns homens tão sujeitos a temores como todos nós. Os doze escolhidos tinham medo, erravam, tinham desejos e ambições, problemas e pecados; mais foram lapidados por Jesus o Mestre por excelência, e se tornaram aptos a realizar a sua obra. Os discípulos não eram todos iguais, eram diferentes uns dos outros, porém todos eles com seus temperamentos, caráter e personalidades eram fundamentais na grande obra que Jesus os mandou realizar.

Ao fazermos esta observação, contida de forma clara nos evangelhos, podemos depreender que ao discipularmos não devemos selecionar os que têm temperamentos ou personalidades iguais as nossas, nem escolher os sábios, cordiais e mansos, ou ainda os de posição socioeconômica estável. A semelhança de Cristo devemos aceitar alguns cabeças-duras como Pedro. É nosso dever acolher a todos os que realmente têm o desejo e a disposição de deixar o Espírito Santo moldar e operar o grande milagre de nos conformar a imagem e semelhança de Jesus Cristo.

Foi este um dos grandes milagres que o Mestre realizou. É quase inacreditável a transformação que ocorreu na vida dos doze. De homens humildes, acostumados à vida simples nas praias da Galiléia, e vê-los mais tarde falando até mesmo no respeitado e pomposo sinédrio de Jerusalém. Veja, por exemplo, a transformação ocorrida na vida do instável Pedro, fugindo e negando a Cristo, e depois cheio do Espírito Santo pregando para uma grande multidão com poder e autoridade, seguindo seu meigo Mestre até a morte. É sem dúvida um grande milagre do discipulado que tiveram com Jesus.

O treinamento dos doze tinha dois propósitos: Torna-los úteis a Cristo, ajudando-o em sua missão, e continuar sua obra depois que Ele ascendesse ao céu. Os discípulos cumpriram ambos. Qual era sua missão, seu comissionamento? Conseguir convertidos? Novos membros para a igreja ou dizimistas? Não! Sua missão e a nossa hoje é fazer discípulos.

Todos nós podemos compartilhar com alguém o que temos aprendido com Cristo. Nossa vida deve ser um exemplo de maturidade espiritual para que as pessoas que nos cercam vejam a luz de Jesus fluindo através de nós, em nossos atos, palavras e atitudes no viver diário. Que nosso exemplo possa ser usado pelo Senhor para auxiliar no crescimento espiritual daqueles que desejam seguir a Cristo.

Se desejarmos efetivamente ver uma mudança, uma atitude na vida daqueles que estamos discipulando, não podemos simplesmente colocá-los com suas características e vivencias tão diferentes juntas em uma sala por certo período, transmitir algumas mensagens, e esperar que se tornem aptas para seguir e fazer discípulos para Cristo. O discipulado exige de quem se propôs a este ministério, tempo, amor e paciência, pois os discípulos em questão são como crianças recém-nascidas em Cristo que precisam crescer espiritualmente, precisam ser acolhidas, amadas, compreendidas.

O discipulador precisa conhecer seus discípulos, e isso não será possível se ele não se envolver, é necessário acompanhar seus passos no todo, não somente nas poucas horas das reuniões semanais. Por isso algo fundamental ao líder de discipulado é ter motivação, ter real entendimento da grande comissão de Jesus.

Os novos discípulos precisam ser visitados, o discipulador deve proporcionar um meio ambiente propício para um inter-relacionamento com os outros membros do corpo de Cristo, onde se compartilham ideias, verdades aprendidas da santa Palavra de Deus, aplicações práticas do viver cristão, aspirações. Tudo isso num ambiente onde haja compreensão, sabendo-se de antemão que o processo é lento e trabalhoso, quem realiza a transformação do velho homem numa nova criatura não somos nós, mais o Espírito Santo de Deus.

Billy Graham, famoso pregador norte americano, disse: […] A salvação é de graça, mas o discipulado custa tudo o que temos […]. Quem não quer se envolver, dedicar seu tempo, seu talento, suas habilidades para ver o desenvolvimento do seu novo irmão em Cristo, não poderá cumprir a ordem de Jesus, e ser um discipulador.

Todo discipulador precisa se esforçar, e buscar constantemente a ajuda do Espírito Santo em oração e estudo da Palavra de Deus, para ser orientado e capacitado por Deus para esta importante tarefa. Jesus Cristo em sua oração sacerdotal nos deixou o exemplo ao orar por seus discípulos e por todos os que viessem a serem seus discípulos no futuro: Assim como tu me enviastes ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim. (JOÃO, 17.19.20).

A grande comissão de Jesus descrita em Mateus 28.19,20; implica em ação. Não podemos ficar estagnados, necessitamos ir à busca das almas, amá-las e discípula-las para Cristo.

O crescimento do Reino de Deus se efetua hoje da mesma maneira que nos dias apostólicos, ou seja: discípulos fazendo discípulos, e estes por sua vez gerando mais discípulos. Não podemos perder o foco nem a visão dada por Jesus. Não existe outra maneira ou fórmulas mágicas como erroneamente alguns hoje tentam realizar. O discipulador precisa, a exemplo do seu mestre Jesus Cristo, se envolver, se doar, ser um exemplo digno de ser seguido e imitado por muitos.

Que Deus nos capacite para que possamos de forma eficaz, colocar em prática no nosso dia-a-dia esta arte de ir e fazer discípulos.

Fonte: Ultimato

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