A oração de Sophia

À mesa em família, Sophia é convidada pelo pai a orar agradecendo o café da manhã. Contrariada, a pequena e faminta sábia de 5 anos de idade percebe que não tem escolha e logo inicia a conversa com Deus.

Ela começa o diálogo divinal agradecendo pela vida do papai e da mamãe, do irmãozinho, da vovó, dos tios; manifesta gratidão pela comida na mesa; e, por fim, pede para Deus afastar os monstros para bem longe de casa. As últimas palavras na oração de Sophia quase não têm tanto valor para desatentos adultos, mas têm poder para estremecer o inferno.

Sophia sabe que monstros existem, no entanto há um poder maior que exerce toda autoridade sobre as monstruosidades a ponto de, sob uma simples ordem superior, todos eles serem afastados para bem longe de casa. Já adultos se esquecem de que monstros são perigosos e se conformam a viver com eles. Em alguns casos, adultos criam seus próprios monstros, os alimentam, e passam a ser assombrados por eles.

Só para ficar no exemplo dos citados à mesa: papai teme o monstro desemprego, mamãe teme o monstro negligência maternal, vovó teme o monstro velhice, titios temem o monstro paternidade tardia – ainda não têm filhos; perceba que nem o irmãozinho escapa da assolação monstruosa: no caso dele, o monstro é o abandono materno – o bebê fica aos berros se está longe da mãe, sentindo-se desprotegido.

Sophia, a pequena guardiã da verdade, relembra aos adultos que em medo todos fomos concebidos e que somente o Deus a quem ela ora pode lançar para fora todo medo. Por saber qual é a sensação de repousar no colo do único e genuíno dono da vida, Sophia não teme nada, embora saiba que monstros estão à espreita, como um leão devorador.

O mundo de Sophia ainda não é tão complexo e deformado como o universo catastrófico dos adultos. Acontece que Sophia irá crescer e um dia entrará no reino mágico e encantando da maioridade, onde é difícil fazer o bem que tanto se deseja, onde o mal é sempre praticado. Será nessa hora decisiva, cheia de dilema e dúvida, que Sophia precisará voltar a ser criança e aceitar o convite irresistível: “Venha a mim, pequenina Sophia. O Reino dos céus é seu”.

Fonte: Ultimato

Confira também

Comentários encerrados.