Texto base: Lc 22.39-46
Todos nós gostamos de coisas agradáveis, que nos dão prazer, mas reconstruir algo que possa ser dolorido não está em nossos sonhos. O Evangelho de Cristo sofreu uma tremenda influência da Teologia da Prosperidade onde provações é falta de fé ou influência maligna. Está na moda ser ‘Filho do Rei”, ter prosperidade financeira, conquistar bens... Getsêmani parece uma palavra distante, um ambiente apenas para Cristo. Porém, podemos aprender muito com tudo que envolveu este lugar e a pessoa do nosso Senhor.
O Getsêmani era um lugar costumeiro - “Como costumava” v. 39. Por ter uma localização afastada da cidade de Jerusalém, uma vegetação rala, e muitas pedras, foi escolhido como lugar de oração. Quando Judas acompanhou os soldados para prender Jesus sabia exatamente onde encontrá-Lo. Era um lugar comum de oração para Jesus e os discípulos.
Temos também um lugar costumeiro de oração onde falar com Deus é primordial? Temos um jardim secreto onde o mais importante é ser visto por Deus?
A oração foi considerada por Cristo um poderoso antídoto contra a tentação– “Para que não entreis em tentação” – v. 40. A oração não é apenas para socorrer-nos nos momentos de aflição. Claro que nas adversidades podemos contar com a misericórdia Divina, mas podemos nos precaver dialogando com Deus. Quando oramos laços são quebrados, setas inflamadas são apagadas, abismos são aterrados, adversários são afugentados e lágrimas de dor são evitadas.
O Getsêmani foi um lugar pessoal – “Afastou-se deles” – v.41. A oração coletiva tem o seu valor. Nela ministramos e somos ministrados. Porém, há momentos que precisamos ter uma identificação pessoal. Ninguém pode entrar em nosso interior e arrancar de lá o que está provocando a dor. Nestes momentos, numa intimidade pessoal, podemos entrar na presença do Senhor e confessar a nossa incapacidade e extrair do coração de Deus a resposta certa para as nossas inquietações. Jesus fez assim, olhemos para Ele.
O Getsêmani foi lugar de humildade – “Pondo-se de joelhos orava” – v.41. A oração deve conter um esvaziamento de nós mesmos. Jesus não exigiu algo do Pai, não determinou, não fugiu das dificuldades, não culpou, mas portou-se como um Servo, o Servo Sofredor como profetizou Isaías. Se quisermos receber algo do Pai, esqueçamos nossos direitos, aliás, nosso único direito é a morte eterna. Somos salvos pela graça, isto é, sem merecimento algum. Humilhemos para sermos exaltados.
O Getsêmani foi lugar de intimidade – “Pai” – v. 42. No amor sem limites de Deus somos amados e regenerados na posição de Filhos. Ser Filho de Deus é um privilégio glorioso. Ele nos acha pecadores, sujos, rebeldes, destinados à perdição eterna... Nos justifica, perdoa, adota, escreve uma nova história para o Seu louvor... Dos muitos privilégios dos salvos, um dos maiores sem dúvida, é chamar o Senhor de todas as coisas de Pai.
O Getsêmani foi lugar de reconhecimento da soberania de Deus – “Se queres passa de mim este cálice” – v.42. O querer de Deus nos traz paz. Tudo é dEle. Nada acontece sem Ele. Nem um átomo ou vírus age sem o querer de Deus. Podemos descansar seguros. A história possui um piloto. Jesus reconheceu e nós?
O Getsêmani foi lugar de sinceridade – “este cálice”- v.42. No momento da oração deve acontecer a retirada de máscaras, um despir da alma. Toda confissão deve ser sincera. Pecado deve ser chamado de pecado, dor deve ser chamada de dor, solidão deve ser chamada de solidão, cálice deve ser chamado de cálice. A cruz não foi fantasia. O abandono dos discípulos, a vergonha, o desprezo, os bofetões, as injúrias, a coroa de espinhos, o chicote e os pregos foram reais. Tudo isto se constituiu um cálice amargo. Jesus não disfarçou. Temos nós confessado tudo abertamente?
O Getsêmani foi lugar de renúncia – “Não se faça a minha vontade, mas a tua”- v.42. Quantas orações perdidas quando achamos que podemos dar uma ordem a Deus. Quando a nossa vontade choca-se com a vontade de Deus, devemos ter consciência de que a vontade que deve prevalecer é a de Deus. Os planos do Senhor sempre são mais elevados que o nosso.
No Getsêmani houve a experiência das coisas celestes – “Um anjo do céu que o fortalecia” – v. 43. Quando um coração se quebranta, o ego é destronado, a fé é acionada, a renúncia tem a última palavra, a busca por Deus é intensa, o mundo é esquecido... Então, a terra se une ao céu, quando necessário os anjos se aproximam, no entanto sempre o doce-maravilhoso-consolo-celeste chega.
O Getsêmani foi lugar de agonia – “e posto em agonia, orava mais intensamente” – v.44. O momento era decisivo. Poucas horas depois seria a pior das mortes, a morte de cruz. A história seria rasgada ao meio. Miseráveis pecadores poderiam entrar na Jerusalém de ouro. O Éden seria restaurado e devolvido aos Filhos de Deus. Assim a noite ficou mais negra. Queridos, há momentos que temos que interceder intensamente pelos outros. A agonia é uma experiência que nos envolve por inteiro. Sai do superficial e entra profundamente no espiritual.
No Getsêmani liberamos o nosso melhor – “E o seu suor transformou-se em Gotas de Sangue...” – v.45. Getsêmani significa “prensa de azeite”. Ali, uma pesada pedra esmagava as azeitonas para que o azeite fosse extraído. A oração é uma prática que envolve um esmagamento do nosso ego para que o melhor seja percebido. Os poros não suportaram e Jesus transpirou sangue. Ele não derramou apenas sangue na cruz, mas também no Getsêmani. Qual a garantia de salvação que possuímos? Somente pelo sangue de Jesus. Ali também Jesus derramou o Seu melhor, o Seu sangue. Quando entramos em nosso Getsêmani também doamos o nosso melhor em gratidão, intercessão e adoração. Deus quer o nosso melhor.
O Getsêmani é um divisor da espiritualidade – “Achou-os dormindo” – v. 45. Enquanto Jesus orava, mesmo os mais íntimos, adormeceram. Getsêmani é assim, ou possuímos e oramos, ou nossa presença é apenas para cumprir tabela e adormecemos. Despertos ou adormecidos, como estamos?
No Getsêmani encontramos o fator animador – “Levantai-vos e orai...” – v. 46. Precisamos orar e motivar outros a orar. Nada de condenação pelos que não conseguem manter os olhos abertos. Um dos objetivos é acordar outros e dizer venham, orem também, a necessidade é grande, não podemos viver sem a comunhão com Deus...
Por último o Getsêmani é lugar de preparação para coisas maiores, o “calvário”. Depois do Getsêmani veio o beijo traidor, a prisão, os julgamentos injustos e a crucificação. Mas glória a Deus, os pecados foram pagos, o véu do templo rasgou-se, o caminho para a salvação foi aberto. Este jardim fechou uma etapa. Jesus os reencontraria pessoalmente somente após a ressurreição. E se os discípulos soubessem que aquele momento de oração com Jesus fosse o último com Ele totalmente humano? Talvez tivesse sido diferente. Fechemos e abramos as etapas de nossas vidas no lugar especial chamado oração.
O que precisamos? Somente três coisas: Tempo, lugar e disposição. Reconstrua o teu Getsêmani.
Por: Pr. Elias Alves Ferreira
Fonte: Sou da Promessa
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